quinta-feira, 5 de maio de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte XIII



Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...



Ser criança na Índia...

Suicídio, pressão escolar, o cotidiano...

Como foi comentado no post anterior, o que pude observar é que as crianças indianas são cheias de obrigações. Alguns amiguinhos, do meu filho, tinham obrigações com várias atividades todos os dias. Aula na escola das 7 as 15:00, depois atividades extra curriculares: aula de pintura, de música, de matemática, artes marciais, reforço escolar,  críquete ou aula de tênis.... Sem falar nas lições de casa que eram bastante. Resumindo, tantas atividades, que a maioria não tem tempo de ser apenas criança. Não tem muito tempo para brincar.


Por outro lado, quando crescem, levam a criança dentro de si, enchendo os parques de diversões e play ground. É até irônico você chegar numa área de playkids- área infantil de jogos no shopping- e ver lotada de adolescentes e adultos. E a pergunta que paira no ar: onde estão as crianças? Estão estudando...estudando..estudando...
Não é a toa que os indianos se destacam no campo das ciências e da matemática, alguns são considerados os melhores do mundo. Ser o melhor em tudo é o grande ideal de todos, desde pequeno.

Mas, atrás disso encontra-se um lado negro que é o alto índice de suicídio.O suicídio é uma das três principais causas de morte entre as pessoas de 15 a 35. Também há um entendimento geral entre psicólogos e professores de que a principal razão para o alto número de mortes de adolescentes é a crescente pressão sobre as crianças para que se saiam bem nos exames escolares.

Algo que pude observar também através dos amigos do meu filho, é que existem  formas  de auto punição, uma tipo de auto-flagelação. Se eles fazem algo errado, eles mesmos fazem algo para se castigar. Como por exemplo: um dia um amiguinho do meu filho, no calor de uma brincadeira, acidentalmente jogou a bola no rosto do meu filho, e logo após disso ele foi para o canto e ficou de cócoras, cabisbaixo, puxando as pontas das orelhas. E o Erik ( meu filho) sem entender nada, foi até ele e falou que estava tudo bem e para ele não ficar triste. Mas, mesmo assim, ele continuou na mesma posição, até que meu marido entrou no quarto e  pediu docemente para que ele saísse do castigo, e que não precisava de tudo isso e que acidentes acontecem.
Se o leitor quiser saber mais sobre pressão escolar e suícidio, leia essa reportagem da BBC:

Ocorrência diária
Inexplicavelmente, os suicídios de adolescentes se tornaram quase uma ocorrência diária no Estado de Maharashtra – um dos mais desenvolvidos do país – e em sua capital, Mumbai.
O total de suicídios de adolescentes desde o começo do ano até o dia 26 de janeiro já era de 32, numa média de mais de um por dia.
Apesar de não haver nenhum dado do mesmo período em 2009 para comparação, há um consenso entre as autoridades preocupadas de Mumbai de que os suicídios de adolescentes estejam saindo de controle.
Também há um entendimento geral entre psicólogos e professores de que a principal razão para o alto número de mortes de adolescentes é a crescente pressão sobre as crianças para que se saiam bem nos exames escolares.
Mais de 100 mil pessoas cometem suicídio todos os anos na Índia, e três pessoas por dia tiram suas próprias vidas em Mumbai.
O suicídio é uma das três principais causas de morte entre as pessoas de 15 a 35 anos e tem um impacto psicológico, social e financeiro devastador sobre as famílias e os amigos.
Campanha
Pressão acadêmica sobre os estudantes é vista como possível causa
A diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Catherine Le Gals-Camus, observa que mais gente morre por conta de suicídio em todo o mundo do que por todos os homicídios e guerras combinadas.
“Há uma necessidade urgente de uma ação global coordenada e intensificada para prevenir essas mortes desnecessárias. Para cada morte por suicídio há um grande número de familiares e amigos cujas vidas são devastadas emocionalmente, socialmente e economicamente”, diz ela.
Em Mumbai, as autoridades estão tão alarmadas com o tamanho do problema que começaram uma campanha, com o slogan “A Vida é Bela”, visando ajudar os estudantes a lidar com a pressão acadêmica.
Psicólogos visitam escolas públicas em Mumbai uma vez por semana para treinar professores que lidam com problemas dos estudantes.
Reuniões
A escola Sharadashram Vidyamandir conta com vários ex-alunos ilustres no país, como os ex-jogadores de críquete da seleção indiana Sachin Tendulkar e Vinod Kambli.
A escola vem promovendo reuniões de pais e mestres nas quais os pais podem receber dicas de como combater as pressões que as crianças enfrentam.
Apesar disso, as sessões não preveniram a morte de Shushant Patil, de 12 anos. Ele foi encontrado enforcado num banheiro da escola no dia 5 de janeiro.
Mangala Kulkarni é diretora da ala feminina da escola. Ela diz que as famílias precisam adotar uma postura mais ativa quando se trata de evitar que os estudantes se sintam estressados.
“As crianças não percebem que elas têm mais caminhos do que apenas o sucesso acadêmico. Elas precisam ser levadas a perceber isso por suas famílias desde a infância”, diz.
Um serviço telefônico de ajuda em Mumbai, chamado Aasra, vem operando há vários anos para tentar combater o problema.
O diretor do serviço, Johnson Thomas, diz que os problemas que as crianças enfrentam hoje têm várias facetas.
“Elas enfrentam pressão dos colegas, têm problemas de comunicação com seus pais, relacionamentos desfeitos, pressão acadêmica e medo do fracasso”, afirma.
O Ministério do Interior estima que para cada suicídio de adolescente em Mumbai há 13 tentativas.
Esta reportagem na íntegra:BBC

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte XII

Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...



Seus filhos na Índia...

Estudante indiano

Disciplina, hora da atividade física



Escola, metodologia educacional indiana, agressões físicas na escola...

Aconteceu comigo...

Esse é um dos temas mais importantes desse guia. Gente, por experiência própria, não foi ninguém que me falou, eu vivi isso, e te dou toda certeza do mundo que isso aconteceu.
 Para quem me conhece melhor, sabe que eu tenho um filho de 7 anos, mas na época que chegamos na índia, ele tinha 6 anos, o nome dele é Erik. O Erik nasceu na Suécia, morou na Indonésia ,na Malásia e no Brasil; e já rodou o mundo desde pequeno, e sempre foi uma criança muito questionadora e não engole qualquer sapo, sempre foi de questionar as ordens recebidas. Aos 2  e 3 anos ele falava inglês fluente por influência dos amiguinhos e da nossa empregada da Malásia e Indonésia., mas quando mudamos para o Brasil ele logo esqueceu o inglês e começou a falar só português.É uma criança extrovertida, faz amizade fácil e é muito alegre. Sempre foi bom aluno, e amava a escola no Brasil. Saímos do Brasil no ano passado quando ele estava iniciando a primeira série, estava começando a ler quando mudamos para a Índia.

Meu marido veio primeiro à Índia para arrumar moradia e também ir adiantando as coisas, eu e o Erik  viemos 2 meses mais tarde. E por sorte assim que meu marido chegou em Mumbai  ele encontrou uma família brasileira numa loja em um shopping,  e eles por coincidência também tinham uma filha com a mesma idade do Erik. Resolvemos colocar o erik na mesma escola da filha deles. Essa família já estava morando a quase 6 meses aqui, e eles me avisaram que, outros brasileiros  tinham falado para eles que, aqui é normal os professores  baterem nos alunos. Mas, que poderíamos tentar evitar que isso ocorresse, era só conversar com a diretora  e explicar  que a nossa cultura é diferente, não se pode bater em crianças, e que não queríamos que isso acontecesse.

  Durante as primeiras semanas, o Erik só reclamava que as professoras e as ajudantes gritavam demais e arregalavam os olhos para repreender os alunos.
E um belo dia o Erik chega da escola chorando muito,  e falando que não queria ir mais para a escola. O abracei e pedi que ele me contasse o que aconteceu. Ele falou que uma das professoras tinha batido nele, perguntei onde ela tinha batido. Ele falou que ela tinha batido no rosto. Eu fiquei logo em pânico, pois por pior ato que o Erik faça nunca encostamos o dedo nele, na pior das vezes repreendemos colocando-o no canto. Pedi para ele contar toda história. Ele contou que estava  brincando de pega-pega no pátio, na hora do recreio,  com a amiguinha brasileira. E que de repente essa professora apareceu e gritou com os dois, e em seguida deu um tapa no rosto dele.

 Quando ele terminou de contar a história, subiu um calor no meu rosto e falei comigo mesma - Quem essa professora pensa que é  para bater no meu filho?- Liguei para a  mãe da coleguinha brasileira do Erik, nessa altura tínhamos ficados amigas. E ela me contou que a filha dela tinha comentado o fato, mas que não foi a professora que bateu, foi a diretora. Logo em seguida falei com meu marido, e ligamos para a escola. Eu fiquei em fúria. Falei com a diretora e ela confirmou que fez isso mesmo,mas que foi somente um “tap”. Tap, uma palavra em inglês que até hoje não entendi qual é o significado aqui na Índia. Para nós brasileiros seria como tapa. Resumindo, a diretora falou que fez isso porque ele estava correndo no chão molhado, e que “tap”  não é bater. Eu, que sou uma mãe leoa, nada muito calminha com quem mexe com as minhas crias, falei um monte para ela. Falei que era um absurdo, que se fosse no meu país ela estaria presa, que isso é considerado um crime contra um incapaz ....  ela pediu perdão e falou que isso não iria mais acontecer, e que por gentileza a gente desse mais uma chance.

O Erik ficou alguns dias em casa, sem escola. E meu marido, que tem mais sangue de barata que eu, pediu que eu reconsiderasse e perdoasse a falta da diretora e desse mais uma chance. E também levasse em consideração que não havia muitas escolas  na redondeza.
Na semana seguinte, reconsiderei o pedido de dar mais uma chance para a escola. Conversei com o Erik, e prometi que isso não iria mais acontecer, e que foi um erro. E ele  com carinha de medo perguntou para mim o que eu faria se isso acontecesse de novo. Falei que eu o amava muito , e que ninguém poderia bater nele,  de nenhuma forma e em hipótese nenhuma. E se acontecesse eu o tiraria de vez da escola.

Não demorou uma semana depois do acontecido, tentaram bater nele novamente, só que não na escola, tentaram batê-lo no rosto, dentro do ônibus escolar. Quem tentou bater foi uma moça que cuida das crianças durante o translado. A moça levantou a mão para bater no rosto dele e ele se esquivou para trás, e o tapa foi ao ar.

Depois deste acontecimento, tiramos o Erik da escola. Então, começou a nossa via crucis, o Erik  ficou traumatizado de ir a escola, chorava toda vez que eu falava para ele que tinha que ir. Fomos em outras escolas internacionais, os preços eram altíssimos, fora das nossas possibilidades. Até que uma colega nossa  indiana, sugeriu que contratássemos uma professora particular para ensinar o básico para ele. Contratamos, ela dava aula para o Erik todos os dias pela manhã. Logo, na primeira semana, falei o que tinha acontecido na escola do Erik. E avisei para ela, que não admitia que ninguém batesse no meu filho, que não era para ela tocar no Erik, em hipótese nenhuma. Mas, logo na segunda semana, o Erik entra no meu quarto chorando que a professora tinha dado um tapa na nuca dele e consequentemente bateu o queixo na mesa. Fui falar com a professora, e ela alegou que isso não era nada, que essa é a forma que as professoras mantêm a atenção dos alunos.

Resumindo: várias tentativas frustradas, eu já estava uma pilha de nervos. Pois, suporto bem: todas as mudanças, processos de adaptações... mas ver o filho  sofrer, para mim ,foi demais!
Conversei com alguns vizinhos, com alguns colegas de trabalho do marido. E todos achavam esse acontecimento muito engraçado, não entendiam a causa de tanta revolta nossa. Alguns falaram que as professoras têm como obrigação manterem a ordem a troco de pancadas na sala. Se o leitor quiser se aprofundar no tema, pesquise na internet, mas em inglês. Você verá casos brutais de professoras contra alunos, alguns artigos descrevem torturas..etc...

O que pude observar, é  que o sistema educacional indiano é arcaico. Não se usa de diálogos ou metodologia  psicológica. Sim, gritos, pancadaria e ditadura... as crianças fazem e não sabem o porquê estão fazendo. São pressionadas para serem as melhores sempre! O sistema educacional não tem respeito pelas características particulares do desenvolvimento emocional de cada criança. Criança, não tem direitos, e sim obrigações. Com 6 anos, elas devem saber a ler e escrever corretamente, e também deve ter noções de matemática. Meu filho era considerado um atrasado. Pois, crianças indiana, desde  quando nasce já é direcionada a ser o melhor! A ser o orgulho dos pais! Os primeiros presentes são jogos educativos, e levam consigo uma  carga enorme de obrigações, não é por nada que alguns sofrem de depressão e recorrem ao suicídio na adolescência. Pois, tirar notas baixas significa vergonha para toda família.

Vencidos pelo cansaço, já tínhamos desistido em encontrar uma escola para o Erik. Até , que, o um colega estrangeiro do trabalho do meu marido, sugeriu uma escola internacional que  a filha dele estava estudando. Fomos nessa escola e explicamos a situação, e o diretor nos garantiu que a metodologia deles era diferente. Pois, eles tinham essa ideologia e o selo Educacional da Cambridge, e tinha que seguir a mesma forma européia educacional.  E se eles  não seguissem o padrão, poderiam perder  o selo e o direito de ensinar. Então, vimos que lá parecia mais sério. O Erik começou a escola, e claro que alguns funcionários tentaram bater no Erik. Mas, avisamos para a direção, e eles foram advertidos, e nunca mais aconteceu nenhuma agressão.

Portanto, se você quer colocar seu filho numa escola na Índia, veja se a escola tem  alguns selos educacionais de metodologia ocidental. E também explique para a direção da escola que nossa cultura é diferente, que não admitimos agressão de nenhuma forma, e mesmo assim fique bem atenta e questione seu filho sobre a escola todos os dias.


Imagens: google imagens

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte XI


Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...


As diferenças de ideias...

Homem com homem pode...

Não é bem visto na sociedade indiana uma cena amorosa entre um homem e uma mulher. Não é de bom agrado beijar, abraçar ou andar de mão dadas com sua esposa ou namorada. Nenhuma expressão de afetividade entre uma mulher e um homem é bem vista. Mas, entre homens tudo pode! Então se você vê homens de mãos dadas, caminhando meigamente pela rua; ou um sentado no colo do outro, beijando o rosto ou mesmo escutar um “Eu te amo” entre eles, não se assuste! Não pense que a comunidade gay tomou conta de toda a Índia. Pois, esses carinhos entre os homens são comuns por aqui.  É tanto amor que até assusta! Porém, se eles virem a cena de um simples abraço entre homem e uma mulher ficarão escandalizados. Mas, em compensação, os mais assanhadinhos podem se deliciar com as artes eróticas e cenas de tremendos bacanais nos quadros e esculturas ao longo dos templos e museus. E tudo isso ao som de uma  expressão muito usada pelos guias turísticos ou repórteres da índia: “It is much passion!”. Porem, por outro lado, seus filhos caminharão pelo museus e  templos e se chocarão com as cenas de extremo erotismo e orgias, e algumas delas quase incompreensíveis: não se sabe  quem estar com a cabeça no quê ou de quem é a  perna, alto erotismo! Sem falar, no Kama Sutra que foi inventado pelos indianos... tanto moralismo para tanto erotismo! Só na incredible Índia.

“Holiday in Goa”

Quando você ouvir essa expressão: “Holiday in Goa”, saiba que, às vezes, não só pode significar um simples feriado em Goa. Mas, também poderá significar uma escapadinha sexual das noivas prometidas, é como se fosse uma despedida de solteira. Antes delas se casarem, e aguentar o marido prometido para todo o sempre, as mesmas vão ter uma farrinha sexual em Goa. Isso é bem documentado no filme ”Outsourced”. Também é para lá que alguns amantes fogem do falso moralismo, pois em Goa  tudo é mais liberado, tudo pode acontecer. É  muito famosa, na Índia, essa expressão de ter uma Holiday em Goa.
Goa é a cidade mais turística da índia, até parece que não é Índia. É uma cidade que foi colonizada por portugueses, e que tem como religião o cristianismo. Considerada o reduto dos amantes. Um final de semana de sexo por lá, e depois voltam para vestirem a camisa da hipocrisia e do moralismo sexual. Tem até um comercial de carro, que tem como pano de fundo uma fugidinha para Goa. O protagonista do comercial (o ator mais famoso da Índia) encontra uma tremenda gata numa exposição de carros. Ela dá mole para ele, eles pegam o carro e vão para uma rodovia; param numa bifurcação onde tem placas indicando  Goa e Mumbai. O protagonista (casado) pára o carro e pensa, e neste momento a esposa  liga para o celular.Mas, ele desliga o celular, dá um sorrisinho malicioso e segue para Goa.

No cotidiano...

Curiosidade extrema

Se um dia você encontrar um desconhecido no elevador do seu prédio ou numa fila de supermercado e ele começar a te fazer várias perguntas: desde onde você é, quanto você ganha ou até mesmo a cor da sua cueca; não se assuste, o cara não é um maníaco sexual... tudo isso é normal, os indianos são bem curiosos. E fazer perguntas pessoais é uma forma de demonstrar cordialidade, principalmente se o questionado é estrangeiro. Minha vizinha sempre me perguntava quando encontrava-me no corredor: para onde eu vou? E o que vou fazer ?E que horas iria chegar?... Achei muito estranho no começo, mas depois me acostumei.


Lakshmana Temple. Khajuraho. Madhya Pradesh, India



Lakshmana Temple. Khajuraho. Madhya Pradesh, India



Lakshmana Temple. Khajuraho. Madhya Pradesh, India

Imagens: google imagens

sábado, 23 de abril de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte X


Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...

Sobre casamento, amor e sexo...



Casamento: como o casamento já é arranjado pelos pais do casal, desde quando eles eram pequenininhos, não resta muito coisa a fazer para os indianos, é aceitar e viver eternamente. Perguntei alguns indianos sobre o amor, pois no ocidente já é difícil ter que aguentar o casamento por amor, sem falar na nossa procura que  é sempre muito grande e suscetível a erro. A maioria respondeu que o amor nasce da convivência, e que seus pais sempre sabem o que é melhor para os filhos. Portanto, eles aceitam essa tradição numa boa. Entretanto, a realidade dos fatos não são tão belos e românticos assim: eles casam, têm filhos, abortam as meninas e  preferem meninos. E quando procriam, alguns deles ficam somente com um tipo de amizade. Moram na mesma casa, e  às vezes dormem em camas separadas. E alguns também não mantêm relacionamento sexual. Mas, não se separam, pois o divórcio ainda não é bem visto na sociedade indiana. Mas, como é do instinto humano ser amado de alguma forma, os mesmos também mantêm a tradição de terem amantes, o dois são cientes da vida extra conjugal de cada um, não somente os homens como também as mulheres. E vivem assim, um casamento fake para a sociedade, e em casa uma bela amizade.

Indianos sedutores: neste longo tempo que morei na Índia, tive muito contato com estrangeiras que tiveram um relacionamento amoroso real ou até virtual com alguns indianos. Dentre elas, uma grande maioria de brasileiras, talvez por uma motivação da novela de Glória Peres. O fato é que o consulado e embaixada do Brasil na Índia receberam muitos pedidos de ajuda, ou pedidos de  informações sobre casamento, ou até informações de ajuda para um relacionamento com um indiano. Alguns casos tiveram finais felizes e outros nem tanto. O fato é que, como em todo o lugar do mundo, existem pessoas que aproveitam da carência de outras e tentam explorar de todas as formas. Portanto, você, mulher que está apaixonada por um indiano, tome muito cuidado. Os golpistas agem da mesma forma: geralmente conhecem as vítimas por algum site de relacionamento; são extremamente românticos, parece até que eles se espelham nos filmes adocicados de Bollywood. Elogiam a mulher, fala que sente saudades, que ela é o sol dos seus dias, e que não consegue ficar um minuto sem pensar na moça. O mais curioso que todos esses sentimentos são declarados logo nos primeiros dias, às vezes também acompanhado  por um  explicito “Eu te amo”. A vítima, carente, achará que está vivendo um conto de fadas, e algumas delas logo entregará seu sono e o coração para o moço. Se for virtual, o suposto romance pode até demorar mais,  mas, alguns ficam somente até o sexo virtual. Outros, entretanto, passam desta fase, e pedem a moça em casamento. A suposta noiva fica nas alturas: avisa para a família, para os amigos. Mas, ainda não sabe que o sádico somente está regozijando da sua conquista.

A maioria dos golpistas tem uma vida financeira precária, e sonham em imigrar para o Ocidente. Sei de casos que a noiva estrangeira pagou as passagens do moço, e o noivo que se dizia apaixonado nunca chegou ao destino, pois aproveitou  as passagens e ficou entre as escalas. Restando, à moça, somente as malas com cuecas que chegou  no setor de desembarque. Outros, mais abusados, pedem os números dos cartões de créditos ou dinheiro alegando a burocracia do Visto. Outros mantêm o romance até a chegada da noiva estrangeira à Índia; e algumas têm muitas surpresas, pois o homem dos seus sonhos já era casado e possuía muitos filhos. Entretanto,em alguns casos, a esposa do moço,na maior cara de pau, pode concordar  com a estada da estrangeira em sua casa. Todas essas histórias são verídicas, quem quiser saber mais, por favor, pesquise na internet, têm sites e comunidades do Orkut com relatos das mesmas.


Para o moço sozinho que vem à Índia: se o moço vem trabalhar por essas bandas, e com certeza deseja algumas escapadinhas com as locais. É possível sim, para a sua felicidade, algumas também namoram com estrangeiros, mas tudo muito discreto, pois não é bem visto uma moça de família prometida ficar de agarramentos com um forasteiro. Mas, cuidado, elas também podem dar golpes (aconteceu isso com alguns nossos colegas estrangeiros). Elas são amáveis e também sedutoras, mas depois de alguma semana saindo com você, provavelmente acontecerá uma grande fatalidade. Alguma pessoa da família da moça  ficará seriamente doente, geralmente é a mãe. E a coitadinha da moça, que não tem muito dinheiro, choramingará para você, e com uma sutileza incrível lhe pedirá um montante de rupias emprestado. E você, ainda com o ombro molhado das lágrimas da moça se sensibilizará, e dará o dinheiro até mais do valor que ela lhe pediu. Então, a moça agradece e fala que é para você não se preocupar e que logo ela te pagará, assim que possível. E sai fechando a porta com toda delicadeza, e você ainda emocionado tenta prender uma lágrima que insiste em descer em sua face. Mas, depois de alguns dias, acontece algo, um truque de mágica que nem o Mister M. poderia desvendar, a moça some... some... como num passe de mágica, você nunca mais verá a moça,  o telefone dela já não atende mais... e assim, como você nunca mais verá a moça da mãe doente,você também nunca mais verá suas rupias...

Levando a moça para afogar o ganso: uma dica, para a noite ou a tarde de amor: leve a moça para o seu apartamento! Pois, caso contrário, se você levar seu amorzinho para um desses hotéis, mesmo que seja um 5 estrelas ( têm 5 estrelas que abrem exceções, dependendo do cash do moço),  a sua tarde de amor poderá virar numa tarde de pesadelo e você verá o sol se por quadrado, sim, isso mesmo que você entendeu... você vai em cana!  Aqui é crime, você levar sua namoradinha indiana para um hotel, isso é lei! Todo hotel, pois mais chiqueirinho que seja, exige no check-in a sua certidão de casamento. Portanto, não dê bobeira, leve a amada para o seu sweet home.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte IX


Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...


Efeito ET: se o leitor for branquinho, você poderá passar pelo efeito ET. Não, não é aquele ET do filme, do dedo grande, do telefone minha casa.... você não deve ser tão feio assim... a questão é por causa da cor da sua pele. O efeito ET é uma denominação dada pelo estado hipnótico que os indianos ficam ao ver um estrangeiro branco. Eles param na sua frente e ficam olhando, olhando, olhando... e mais olhando... sem nem piscar os olhos, por horas assim. E alguns hipnotizados são mais caras de pau, também pedem para tirar fotos com você, acho que é para guardar como lembrança de um encontro com um suposto alienígena.

Eletricidade: a voltagem na Índia é 127, mas é constante  uma oscilação e queda de energia, cuidado com os aparelhos eletrônicos. É comum faltar energia o dia todo, por isso, quase toda casa ou apartamento possuem pequenos geradores.

Sem lazer: têm certas horas que você sentirá a falta do que fazer nos finais de semana, sabe aquele passeio no parque ou na praia, o lazer nos recantos naturais. Isso, não existe por aqui, os poucos parques que existem são velhos e quebrados com jardins não conservados. Então, o que resta em relação ao lazer, são somente os shoppings lotados e barulhentos, que em vez de te trazer descontração trará mais estresse ainda.

Sujeira na sua casa: se você for uma maníaca por limpeza, não venha à Índia, pois mesmo que você limpe sua casa duas vezes ao dia, ainda não será suficiente. Pois, qualquer brisa que entre no seu doce lar, encherá novamente de um pó preto, portanto relaxe e acostume-se a viver na sujeira. Não somente em sua casa, também pelas ruas de Mumbai,têm lugares que são verdadeiros lixão ao céu aberto. Se o viajante for atencioso, poderá observar que, olhando para alguns barraquinhos  também verá que as pessoas moram juntamente com o lixo.O lixo é tão normal por aqui, que se deve aprender a viver com ele. Já vi muitas dessas favelas entre Novo Mumbai e Mumbai, nas rodovias, dá até para ver dentro das tendas, elas estão cheias de pessoas e lixo. Se você reclama para um nativo sobre o lixo, ele lhe dará a desculpa da superpopulação. Mas, daí pensamos ironicamente num país vizinho que é campeão de população, mas que não é tão sujo assim, a China.

Animais por todos os lugares:
Animais por todos os lados, desde elefante, camelo , vacas e milhares de cachorros e pombos... Animais famintos e magrinhos revirando o lixo. O único animal que eu não vi por aqui foram os gatos, pois dizem que os gatos trazem má sorte, por isso são eliminados. É importante ter cuidado com crianças, pois é enorme a quantidade de cachorros doentes. Meu filho mesmo, quase foi mordido por um cachorro, detalhe: aconteceu dentro do nosso condomínio fechado, para você ver a noção de segurança do prédio, os cachorros de ruas são a grande maioria no nosso prédio, superando até pessoas. Cuidado também ao andar pelas ruas, pois qualquer hora você poderá ser bombardeado por um jato de merda de pombo, e se acontecer, agradeça aos deuses indianos, pois ser bombardeado por merda de pombo na Índia é sinal de boa sorte.

Cheiro de merda seca: todo final de tarde, em casa, tomo meu café com torrada; olhando pela janela da cozinha o pôr-do-sol de Mumbai, ao aroma de merda seca que sempre é exalado na mesma hora e que dura mais ou menos umas 3 horas. Já tentei até entender e investigar as hipóteses para este acontecimento, penso que todos nessa hora fazem cocô coletivamente num lago de frente da nossa casa, ou abrem a fossa neste horário. Portanto, um aviso às pessoas sensíveis ao cheiro, compre caminhões de incensos para fazer suportável a sua estada.




Vacas comendo lixo
Vacas magrinhas pelas ruas


Vaca comendo lixo








Ressalva: mudei o nome do Guia para Manual de sobrevivência, pois achei que ficaria mais cabível ao propósito dos posts. E acrescentei também, na primeira parte do manual, a origem dos fundamentos do manual, que foram baseados: nas minhas experiências, nos contatos com os nativos e com os estrangeiros que moram na Índia, e também por pesquisas feitas de modo físico ou virtual com Organizações não Governamentais que prestam ajuda humanitária na Índia. Portanto, as informações  de todo manual não são  fabulosas, são verdadeiras.
 E se o leitor quiser se certificar da veracidade dos fatos, é só pesquisar na internet. As informações da miséria, da exploração infantil, da discriminação e eliminação das mulheres e outras...estão documentadas em vários sites e também por filmes. Espero que vocês continuem apreciando o manual, e, por favor, comentem, mesmo que seja uma critica, pois assim saberei que o objetivo foi alcançado. Abraços a todos.  

Imagens: Google imagens.

domingo, 17 de abril de 2011

Manual de sobrevivência na Índia- Parte VIII


Tudo que você precisa saber sobre a Índia e ninguém teve a coragem de te falar...

Continuação...



Estrangeiros na direção:

É aconselhável não dirigir aqui na índia, pois se você atropelar um motociclista ou causar qualquer acidente, você poderá até ser linchado. Pois, é normal fazerem justiça pelas próprias mãos. Inclusive, as empresas que contratam estrangeiros usualmente disponibilizam motoristas para a segurança dos seus empregados. Existem muitas empresas terceirizadas que fornecem carros com motoristas por um valor bem baixo, é um serviço comum e necessário aqui na Índia.
Eu já vi algumas brigas feias pelas ruas de Mumbai, é de assustar.


Aconteceu comigo: um dia, nosso motorista foi abordado por outro motorista, por ter ultrapassado-o na frente no sinal amarelo. O motorista do outro carro nos deu uma fechada na rua seguinte, e inúmeras pessoas se aglomeraram. Ele estava com tanta raiva que já veio para bater no nosso motorista, mas, ele viu que tínhamos uma criança, e para nossa sorte relevou. Contudo, confesso que ficamos apavorados com a multidão que se formou e com a ira do motorista.

Faxineira: diferentemente do Brasil, aqui não existe uma faxina que você tem uma diarista para limpar tudo. Elas limpam por partes, você paga por cada lugar limpo, e dependendo do lugar e da casta elas não limpam. Algumas não limpam banheiros e nem recolhem o lixo. A minha, por exemplo, só limpa o chão e lava a varanda, e eu faço o resto.

Babá: é impossível encontrar uma, só se você tiver muita sorte de trazer alguma do interior. Mesmo, uma babá casual não existe por aqui. E se você pedir ajuda para seu vizinho para  encontrar uma babá casual, eles te acharam louca. Pois, não existe essa idéia de deixar filho com outra pessoa para ir jantar ou ir ao cinema com marido. Mulher na Índia foi feita para cuidar da prole sempre, não existe romantismo entre marido e esposa, o casamento é visto mais como um contrato predestinado.


Aconteceu comigo: perguntei várias indianas sobre uma babá para eu ir ao cinema com o marido e elas acharam um absurdo, ficaram com aquelas caras de espanto.

Compras...

Roupas: é muito difícil encontrar roupas com um caimento perfeito para o padrão brasileiro, geralmente são grandes demais ou pequenas demais, a solução é comprar algumas peças e mandar ajustar na costureira.

Esmaltes: para quem gosta de pintar as unhas, aqui encontrei esmaltes colorama importados do Brasil nas lojinhas da Maybeline por um preço bem acessível. Pois, esmalte é artigo raro e de luxo, pois as indianas não costumam pintar as unhas.

Lavar roupas: aqui tem lavadores de roupa por todo o lado, são lojinhas pequenas e sujas, são buracos na parede, eles lavam e passam por uma bagatela.

Pedintes: miséria é o que mais se vê em toda Índia, portanto acostume-se a ser perseguido por dezenas de pedintes de todos os perfis: dos velhinhos de muleta, das criancinhas sem olhos, de mães com bebezinhos no colo... Mas, evite dar esmolas, pois se o fizer, você atrairá mais pedintes ainda, tornando sua simples caminhada num terror. Aconteceu isso com meu marido, ele deu umas moedinhas para uma criança, e dezenas delas apareceram, e começaram a puxar a roupa dele, a carteira, bolsos...e só restou o coitado correr para se abrigar num shopping. Detalhe que a roupa do maridinho era branca; ficou num estado deplorável, sujo e todo rasgado. E enquanto o gringo corria de dezenas de trombadinhas, formou-se um publico enorme de indianos tirando fotos e gargalhando, gargalhando do gringo fujão sendo perseguidos pela molecada.

Ps: mesmo que o seu coração esteja quebrado ao ver aquela menininha sem olho, e queira dar uma esmola, não dê! Saiba que sua doação na maioria das vezes não vai para a coitada da menina, vai para a máfia. Pois, essa menina, quase sempre, está cega para justamente sensibilizar você. Cruelmente, os exploradores estão atrás de toda essa miséria; os mesmos furam os olhos de crianças e exigem que elas peçam esmolas. Sem falar na exploração sexual das mesmas.  Presenciei uma dessas meninas sendo cobrada e pressionada por um desses exploradores: num dia que eu saí de um circo com toda a família, era perto de um farol, muito tarde da noite, estávamos esperando o táxi para nos levar para casa. Vi o cara gritando com ela, e olhando a caixinha onde ela guardava o seu dinheiro. Ela tinha um olho furado, e estava lá desde o começo da primeira sessão pedindo dinheiro para todo mundo.







Imagens: Pedintes, google imagens

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Discriminação e eliminação das mulheres na Índia



Diretamente de Khao Lak, na Tailândia...


Passando rapidinho pelo blog para publicar esse artigo, divulgado hoje pelo The New York Times, não poderia deixar de mostrar um pouco mais da realidade das mulheres na Índia. 

Nem tudo é  "Zen" na Incredible Índia...



The New York Times
Por Nilanjana S. Roy, em Nova Déli (Índia)
Os números contam uma história velha e cruel: a eliminação sistemática das meninas na Índia. No censo de 2001, a proporção entre os sexos –o número de meninas para cada 1.000 meninos– era de 927 na faixa etária de 0 a 6 anos. Dados preliminares do censo de 2011 mostram que o desequilíbrio agravou, para 914 meninas para cada 1.000 meninos.
Os grupos de mulheres estão documentando este tipo particular de violência contra o gênero há anos. O demógrafo Ashish Bose e o economista Amartya Sen chamaram a atenção para as mulheres desaparecidas da Índia há mais de uma década. O aborto de fetos femininos aumentou à medida que a tecnologia médica tornou mais fácil a detecção do sexo do bebê ainda não nascido. Se for uma menina, as famílias frequentemente pressionam as mulheres grávidas a abortar. Testes que determinam o sexo são ilegais na Índia, mas o ultrassom e os centros para fertilização in vitro frequentemente driblam a lei, e o aborto por médico é facilmente obtido.
Algumas mulheres, como Lakshmi Rani, 30 anos, do distrito de Bhiwani, em Uttar Pradesh, foi pressionada a cometer múltiplos abortos. As três primeiras gestações de Rani foram interrompidas.
“Minha sogra me levou pessoalmente à clínica”, ela disse, de modo direto, mas mal audível. “Não foi minha decisão, mas não tive escolha. Eles não queriam meninas.”
Agora a família de seu marido a está pressionando para engravidar de novo e ela está torcendo por um menino. Apesar das campanhas do governo contra o aborto de fetos femininos, ela não acredita que terá escolha.
A história de Rani é comum por todo Uttar Pradesh, um Estado que possui uma das maiores desproporções entre os sexos na Índia. Os números do censo mostram que a razão entre mulheres e homens na faixa de 0 a 6 anos caiu de 916 em 2001 para 899 em 2011.
Em um relatório do Unicef de 2007, Alka Gupta explicou parte do problema: a discriminação contra as mulheres, já entranhada na sociedade indiana, cresceu devido aos desenvolvimentos tecnológicos que agora permitem que clínicas móveis de escolha de sexo ingressem sem controle em quase todas as aldeias ou bairros.
A Lei de Técnicas de Diagnóstico Pré-Natal e Preconceito de 1994 sofreu uma emenda em 2003, para lidar com a profissão médica –o “lado da oferta” da prática de seleção de sexo. Mas a lei tem sido mal fiscalizada.
Os motivos por trás do aborto de fetos do sexo feminino são complexos, segundo o Centro para Pesquisa Social, uma organização de pesquisa em Nova Déli. Ranjana Kumari aponta que a prática ocorre em alguns dos Estados mais prósperos –Punjab, Haryana, Déli, Uttar Pradesh– indicando que o crescimento econômico não garante uma mudança nas posturas sociais.
Ela aponta vários fatores que levam à preferência por meninos em muitas partes da Índia, especialmente no norte conservador: os filhos são uma fonte de renda para a família, as filhas se casam e ingressam em outra família e não estão mais disponíveis para cuidar de seus pais, os dotes tornam as filhas uma despesa e, nas áreas rurais, há o temor de que as mulheres que herdem terras possam transferir a propriedade para a família do marido.
Outra forma de violência contra a mulher –as mortes por dote– é igualmente bem documentada, e igualmente terrível, apesar dos indianos estarem tão acostumadas com elas que elas se tornam quase invisíveis.
Os nomes de Sunita Devi, Seetal Gupta, Shabreen Tajm e Salma Sadiq não chamam muito a atenção da maioria dos indianos, apesar de estarem todas nas notícias na semana passada por motivos semelhantes. Sunita Devi foi estrangulada em Gopiganj, Uttar Pradesh, a grávida Seetal Gupta foi encontrada inconsciente e morreu em um hospital de Déli, foi ateado fogo em Shabreen Tajm que queimou até morrer em Tarikere, Karnataka, e Salma Sadiq sofreu um aborto após ser espancada por seu marido em Bangalore.
As exigências por dotes maiores por parte da família do marido estiveram por trás de todos esses atos de violência, e são tão comuns que recebem apenas uma breve menção nos jornais. Os números do Birô Nacional para o Crime indicam que as mortes por dote aumentaram, com 8.172 em 2008, em comparação a cerca de 5.800 uma década antes.
Monobina Gupta, que pesquisa a violência doméstica para Jagori, uma organização não governamental, faz uma ligação direta entre essas mortes e o aborto de fetos femininos: “O dote faz parte do contínuo de discriminação e violência baseada em gênero, começando pelos feticídios femininos. Após a chegada da liberalização ‘econômica’ em 1992, a lista de exigências de dote se tornou ainda maior. A abertura dos mercados e a expansão da classe média alimentam o consumismo e a demanda por bens modernos. Por exemplo, estudos mostram que televisores a cores e aparelhos de home vídeo substituíram os televisores preto-e-branco, carros de luxo os Maruti 800 anteriores, aparelhos sofisticados substituíram os processadores de alimentos básicos”.
“É semelhante ao que está acontecendo com os feticídios”, ela disse. “À medida que a classe média ganha mais dinheiro, ela tem acesso à tecnologia médica mais sofisticada, tanto para assegurar o nascimento de um menino quanto para se livrar de uma menina não nascida.”
Qual é o custo de ter uma filha para uma família indiana, ou para a família do menino de abrir mão do dote? O economista T.C.A. Srinivasaraghavan estima o dote médio em torno de 10 mil rúpias, ou US$ 225. Esse número médio mascara as exigências exorbitantes de dote que costumam ser feitas pela família do noivo.
Em resposta aos resultados preliminares do censo de 2011, o governo central criou um escritório para monitorar o uso indevido de técnicas de seleção de sexo e o aborto de fetos do sexo feminino. Mas o verdadeiro progresso só virá quando mudarem as atitudes culturais em relação às mulheres. Enquanto isso, as mulheres terão que encontrar suas próprias soluções.
Em uma área nobre de escritórios de Nova Déli, Kiran Verma, 28 anos, cuidava de sua minúscula loja, um centro de fotocópias. O pai de Verma deixou a família anos atrás, e sua mãe, uma empregada doméstica, se preocupa em como cobrir o custo do casamento da filha. Mas como muitas outras mulheres urbanas atuais, Verma tem seus próprios planos. “Mais um ano e eu terei ganho meu dote”, ela disse com confiança. “Dessa forma eu terei alguma escolha em relação à família para a qual entrarei.”
Mulheres jovens que economizam seus próprios dotes não é a solução radical –a erradicação total do dote e da discriminação contra as mulheres– com a qual sonhava uma geração de feministas. Mas em seus esforços para se redefinirem como geradoras de riqueza, em vez de ônus para suas famílias, Verma e sua geração de mulheres indianas podem estar desferindo alguns golpes por conta própria contra os preconceitos que contribuem para o aborto baseado em gênero.
Tradução: George El Khouri Andolfato
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2011/04/13/censo-de-2011-revela-aumento-na-discriminacao-das-mulheres-na-india.jhtm